André Rodrigues em entrevista (de Natal)

Autor: Alexandra Simão    Data: 25-12-2019
Publicado em: Entrevista

A Trail-Running.pt delegou na Alexandra Simão a árdua tarefa de entrevistar uma personalidade natalícia. Depois de participar no  Desafio Picos do Açor, a nossa colaboradora abrantina não teve dúvidas em eleger o André.

No dia mais apropriado, 25 de dezembro, publicamos a entrevista a um dos dois mentores da prova, atleta da comunidade Prozis Athletes, treinador, embaixador do Ultra Sanabria Caja Rural, …

A primeira questão que gostaria de te colocar, e porque começaremos pelo início, quem é o André?

A melhor maneira de descrever o André é alguém que não consegue responder a essa questão objectivamente…

Tenho 33 Anos, sou licenciado em Ciências do Desporto e Técnico de Marcha e Corrida. Sou uma pessoa simples de poucos interesses, mas os que tenho são de maneira quase obsessiva .

Gosto do silêncio, de estar sozinho, da natureza e de desafios, sou impulsivo e vivo para aquilo que gosto de fazer, neste caso o fenómeno desportivo que acaba por ser o meu hobby, profissão e modo de vida.

Dizes-nos que o “fenómeno desportivo” acaba por ser o teu hobby, profissão e modo de vida. Como e de que forma é que o desporto passou a fazer parte do teu dia-a-dia?

Quase sempre pratiquei desporto, até entrar na universidade joguei futebol. No segundo ano do curso, interrompi os estudos e estive cerca de 3 anos em que aí sim não pratiquei qualquer actividade desportiva.  Mas quando regressei à universidade, para terminar o curso, comecei a correr e através do meu professor de escalada, numa viagem a Benasque, conheci o trail e fiquei logo “viciado ” .

Quando terminei o curso comecei logo a trabalhar num dos maiores clubes de atletismo nacionais, a Juventude Vidigalense e o atletismo/trail nunca mais deixou de fazer parte da minha vida.

Queres-nos contar um bocadinho dessa tua viagem para percebermos de que forma conheces a prática de trail?

Fui num grupo para Benasque praticar várias actividades (canyoning, escalada e trail) durante uma semana. O professor tinha-nos inscrito numa prova que decorria no fim de semana, que entretanto deu origem ao Trail Aneto.

No dia da actividade fizemos os 40 kms, foi giro mas nada de especial, não tinha fitas, nem abastecimentos e eram quase 40 kms em que ias e voltavas pelo mesmo caminho. No entanto, no dia seguinte fomos ver a entrega de prémios da prova dos 90 kms e a chegada dos últimos atletas. Tanto a chegada dos últimos como a história do vencedor já com uns 50 anos, Salvador Calvo, marcaram-me e achei aquilo uma coisa fenomenal.

Quando voltamos a Portugal, o mesmo professor lançou o desafio de irmos, passados uns meses, à melhor prova de Portugal  na altura, o Grande Trail Serra D’Arga e para mim começou tudo aí, fui segundo classificado nos 23 kms, comecei a levar mais a sério os treinos e nunca mais parei até hoje.

Podemos então dizer que o trail running surge na tua vida por uma série de (boas) circunstâncias! Quando participaste no Grande Trail Serra D’Arga, que sentimentos foram os que tiveste quando terminaste? O que é que sentiste?

Estava muito feliz mesmo, e surpreendido por ter sido segundo classificado. Ainda me lembro que na semana seguinte, até quinta-feira, não consegui fazer aulas práticas tal foi o empeno com que fiquei, mas sabia que queria mais daquilo e reviver aquelas sensações.

Que sensações foram essas, André? Que coisas te disseram quando terminaste essa prova, que por aquilo que nos parece, foi uma das principais responsáveis por o trail running fazer parte da tua vida?

A sensação de realização, o próprio acto competitivo, a competição é como uma droga para mim. Eu gosto muito de correr por correr mas preciso da competição também, para mim não existe uma sem a outra.

Quando a prova terminou os meus colegas estavam tão surpreendidos como eu, mas todos percebemos que eu tinha algum jeito para a coisa.

E sim a Serra D’Arga foi uma das principais responsáveis por me ter entregue tão apaixonadamente a modalidade.

É a conjugação de muitos factores que te fazem entregar tão apaixonadamente pela modalidade, como dizes.  A competição. A partir de que momento é que começaste a perceber que, para além do gosto, “até tinhas algum jeito para a coisa”? 

Foi logo em Arga, e como estava a terminar o curso de Ciências do Desporto tinha já conhecimentos que me ajudaram a começar a treinar bem. E durante o ano seguinte fui crescendo na modalidade acabando por, nesse mesmo ano, ganhar já a prova principal do Grande Trail Serra D’Arga, sendo a partir daí que comecei a ser mais conhecido.

Quando ganhaste a prova principal do Grande Trail Serra D’Arga foram muitos os sucessos que se seguiram! Quais são as vitórias que mais destacas até ao dia de hoje? Quais foram as provas que mais te impressionaram?

Eu não me lembro da maioria das provas que já fiz ou ganhei, nem sequer tenho isso registado em lado nenhum. Portanto o que me vem à memória são as que mexeram mais com as minhas emoções: os 3 campeonatos nacionais, as 2 vitórias nos Abutres, e talvez o Trail Pirineu deste ano, por vir de uma fase bastante complicada.

A prova que mais me impressiona, que me faz sonhar é, sem dúvida, Zegama. Estes últimos anos devido aos mundiais não tenho podido estar presente, mas espero voltar em breve.

Recordas então mais facilmente as provas que te despertaram emoções mais intensas, porque também é disso que o trail é feito, de emoções. Concordas?

Sim concordo a 100% e acho que é isso que também leva tanta gente a se apaixonar por esta modalidade.

E não podíamos falar de emoções se não falássemos de um grande sonho: o Desafio Picos do Açor, ainda com, muito provavelmente, todas as emoções à flor da pele. Queres-nos contar que Desafio é este?

O Desafio Picos do Açor (DPA) é um projecto conjunto que tenho com os Irmãos Gouveia. Sonhámos que podíamos criar em Arganil, e no Açor (a nossa serra) uma prova de excelência, que juntasse história, montanha e competição.

Criámos em Arganil aquilo que, como atletas que somos, gostaríamos de encontrar nas provas em que participamos. Podemos dizer então que o DPA descreve na íntegra aquilo que nós interpretamos como trail running.

Sentiram, desde logo, que teriam as condições ideais para proporcionar aos participantes aquilo que, também vocês, pretendem e querem encontrar nos trilhos? Queres-nos contar como é que foi a 1ª edição? Quais eram as expectativas e os receios?

Nós tivemos sempre na cabeça o que queríamos, mas daí até passar para o terreno é um passo gigante. Na primeira edição tudo assustava, era algo novo para todos e ainda por cima tivemos logo casa cheia.

Penso que todos admitimos que tivemos alguma sorte na primeira edição, acabou por sair tudo quase perfeito ainda que tanta coisa pudesse ter corrido mal.

Nesta segunda edição tentámos ter mais controlo sobre todos os aspectos e correu tudo muito bem. É fantástico o feedback de todos. Mas também assustador, dada a magnitude que a prova tomou em apenas 2 edições.

Sentes que, por ser uma prova em que o rosto é o vosso, as pessoas confiam muito nas vossas capacidades para criar algo que satisfaz e supera todas as expectativas?

Nisso penso que existem as duas faces. Por um lado sim, por outro quando és um atleta de elite competitivo também tens sempre gente pronta a apontar o dedo e qualquer pequeno erro terá uma maior magnitude.

Penso que a nossa imagem ajudou muito a alavancar a primeira edição, mas agora felizmente a prova já tem identidade própria e o seu sucesso deve-se em exclusivo à qualidade da mesma.

O que é que distingue o DPA das outras provas? O que é que consideras que esta prova tem de particular relativamente às outras?

Responde-me tu a essa questão!

Felizmente tive a possibilidade, até por mero acaso, de participar na 1ª edição do DPA. Quando terminei a prova, nem palavras tinha para a conseguir descrever. Lembro-me apenas de ter dito “isto sim!”. E penso que esta expressão demonstra que esta prova apresenta realmente particularidades relativamente a todas as outras.

Recordo-me que o que mais me impressionou foi o facto de poder experienciar diferentes estações do ano durante 18 kms e sentir-me feliz por isso! Os trilhos, as pessoas, os voluntários, … a envolvência de todo o evento! É tudo isso que é particular nesta prova. E, como tal, não podia deixar passar a 2ª edição sem lá voltar. E mais uma vez, “isto sim!”!

É este tipo de comentários que recebes por parte dos participantes? O que é que isto vos faz sentir, enquanto equipa organizadora do evento?

Sim, penso que não foste a primeira a usar a expressão “isto sim”!

A mim deixa-me emocionado, principalmente as pessoas que vinham ter connosco, ainda cheias de lama, a agradecer e elogiar o evento com um brilho de autêntica felicidade nos olhos.

Na realidade esse é o nosso combustível e é por isso que damos tanto de nós a este evento.

Estão preparados para que esta seja uma prova onde todos e todas querem estar? Uma prova que, de ano para ano, traga mais e mais gente aos trilhos da serra do Açor? É essa a vossa vontade?

Sim queremos que seja “a prova” onde todos querem estar. Ainda que nunca venha a ser possível, para manter a qualidade do evento e satisfação de todos, não podemos ter um número ilimitado de participantes. Este ano tivemos cerca de 1300 inscritos, mas tivemos de recusar centenas de inscrições.

É algo que por vezes as pessoas não entendem e ficam aborrecidas por não poderem participar, mas é a única forma de garantir que o DPA tenha a qualidade que todos esperam.

Essa é uma das vossas principais preocupações, a de manter a qualidade do DPA.  E para 2020? Já sabemos que existirá uma 3ª edição pelo vosso “Até 2020!”.  Queres desvendar-nos o que será o terceiro ano de DPA? O que é que as pessoas podem esperar?

Sim, qualidade acima de tudo. Para 2020 temos o desafio de ser Master da ProLeague.

O que podemos garantir é que à semelhança deste ano, onde já tivemos prémios monetários, o nosso foco será sempre o atleta de pelotão e garantir que TODOS saem daqui com uma história feliz para contar.

Devido a essa nova responsabilidade posso já adiantar que a prova principal, os 32 kms se realizará no sábado dia 12 de Dezembro.

O que prometemos é trabalhar ainda mais para que no final seja unânime…”É isto”!

Voltemos ao André! Objectivos para 2020?

Para 2020 pretendo continuar a tentar evoluir internacionalmente. Para já tenho o calendário do primeiro semestre relativamente definido, mas ao contrário dos anos anteriores não farei planos além disso.

Para já, o meu grande objectivo é Zegama no final de Maio, até lá participarei em algumas provas da ProLeague no Campeonato Nacional de Ultra que é já nos Abutres, no Campeonato Nacional de Clubes em Espanha e provavelmente voltarei ao Alto Sil.

Depois disso, o mais provável será fazer o resto das Golden Trail Series mundiais, mas caso Zegama não corra como esperado e como monetariamente é exigente realizar algumas das provas desse circuito, tenho um ou outro Plano B, que pode passar por, finalmente, correr os 3 dígitos no CCC por exemplo.

Certo é que, mais uma vez, terei de terminar a época em Outubro, porque a partir daí só pensamos no DPA.

Porque considero muito importante fazer sempre esta pergunta, aqui vai! Para além que está decidido em experimentar, pela primeira vez, a prática de trail running, que dirias a essa pessoa?

Para abraçar a modalidade com toda a paixão que esta naturalmente desperta, mas para não cair no erro de querer fazer tudo duma vez e assim comprometer a sua saúde e longevidade no desporto.

Há imensas provas de qualidade e a tentação de participar em todas, mas devemos gerir as coisas com calma, as que não fazemos num ano fazemos no seguinte. Garantimos assim que podemos andar cá muitos anos e a longo prazo acabamos por fazer mais e desfrutar mais da modalidade.

Para terminar, e porque acho que devemos sempre acabar desta forma. Numa frase ou em curtas palavras, como é que descreves esta modalidade?

Liberdade, paixão, superação.
Para mim o trail é isso!

 

A ti André, em meu nome pessoal e da Trail-running.pt desejamos-te as maiores felicidades para esta época! Que tudo te corra como desejado e que alcances o sentimento de dever cumprido!  

Obrigada por teres partilhado connosco o que de melhor o trail tem, as emoções que nos faz sentir e a própria liberdade com que se sente quando se corre! Com toda a certeza que, com pessoas a pensar o trail como pensas, esta modalidade só tem bons motivos para vencer! 

Fotos: Miro Cerqueira (1); Matias Novo (2;3;4)

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