Carlos Sá em entrevista

Autor: Redação    Data: 21-10-2020
Publicado em: Entrevista

Perto de completar 47 anos de idade, Carlos Sá é uma referência do ultra running mundial e um dos mais conceituados organizadores de eventos de trail running. No seu currículo, o barcelense conta com primeiros lugares na Badwater Ultramarathon (217 km), na Grand Raid des Pyrénées (160 km), Trail Morzine – Avoriaz (43 km) e Madeira Island Ultra-Trail (116 km), bem como quartos lugares na Marathon des Sables (250 km) e Ultra Trail du Mont Blanc (103 km).

Num artigo intitulado “Carlos Sá Nature Events, o império do Trail”, a consagrada revista espanhola TrailRun considera Carlos Sá um dos melhores organizadores de provas da modalidade a nível mundial. De melhor corredor de montanha luso a um dos melhores organizadores de corrida do mundo, Carlos Sá é elogiado pela sua dedicação e visão na organização de eventos. A crescente qualidade dos mesmos é associada à capacidade que Carlos Sá tem em oferecer aquilo que o atleta procura: “uma verdadeira experiência de vida onde se mistura o desporto, a cultura e o épico”.

O também embaixador da marca americana Saucony enfrenta agora um desafio totalmente novo – a pandemia de Covid-19. A Trail-Running.pt conversou com o Carlos Sá e ficou a saber como esta condicionou a sua atividade.

Como se adaptou a tua “máquina” de organização de eventos à pandemia? Como é gerir eventos sem certezas?

Só quem gosta muito daquilo que faz é que encara uma organização com 800 atletas nesta nova realidade. Aceitei organizar o TransPeneda-Gerês e o Penacova Trail do Centro não só pelo desafio, como também pela responsabilidade que temos para com a modalidade. Achámos que os atletas e toda a economia que gravita à volta dos eventos necessitavam deste estímulo. Estamos numa altura na qual não devemos pensar em ganhar ou perder dinheiro, mas sim fazer acontecer…
Mas creio que, a nível financeiro, será inviável a longo prazo este modelo que adotámos, pelo que teremos de nos adaptar num futuro próximo, se esta situação se prolongar no tempo.

E como atleta, o que mudou nas tuas rotinas de treino?

Infelizmente, estou numa fase menos ativa da minha carreira enquanto atleta. Tento manter a minha atividade regular para continuar com um estilo de vida saudável e esperar que, com o tempo, o meu corpo possa regenerar e livrar-se das lesões e limitações que tenho neste momento.
Foram muitos anos ao mais alto nível e, às vezes, temos mesmo de parar e ouvir os sinais do nosso corpo.

Já organizaste dois eventos em tempos de Covid. Como decorreram e quais os constrangimentos que se verificaram?

Primeiramente, a gestão da adesão aos eventos. Somos quase todos mais ou menos conhecidos, e estar todos os dias a dizer a amigos que não lhes conseguimos mesmo arranjar um dorsal é desgastante.
Em segundo lugar, a implementação de todas as regras de segurança e fazê-las cumprir. Felizmente, posso contar com uma equipa extraordinária que abraça estes desafios com amor e determinação, e consegue transmitir aos nossos clientes essa dedicação. Clientes esses que são cada vez mais exigentes mas, sentindo confiança da nossa parte, as coisas funcionam na perfeição.

Estivemos em ambos os eventos. Em Penacova, o evento que foi Campeonato Nacional de Trail foi muito disputado. Esperavas esta competitividade? Qual o feedback dos atletas?

Sim, esperava esta competitividade. Felizmente, temos novos valores que vão certamente dar muitas alegrias ao trail nacional num futuro próximo. O que o trail precisa é disto: grandes eventos e espetáculo, e isso só é possível quando uma grande parte dos melhores atletas do momento se encontra em competição, como foi o caso.
O feedback é fantástico. Penacova fica com uma responsabilidade muito grande para os próximos anos, uma vez que foram milhares aqueles que quiseram competir e não conseguiram vaga. Temos de continuar o bom trabalho de consolidação da marca Penacova, que começa a ser uma grande referência nacional.

Como vês o panorama de eventos após o fim da pandemia?

Vivemos numa incerteza tal, que nem me arrisco a fazer previsões a médio prazo. Contudo, nós portugueses somos bons a adaptar-nos a quaisquer que sejam o cenário e circunstância. O trail running terá sempre o seu espaço, os moldes é que podem ser diferentes dos que eram até março de 2020.


Foto: DR

Conteúdo produzido para a nossa revista parceira “Sim”.

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