Oh Meu Deus by UTMB coloca Seia no mapa mundial do trail running

Autor: Redação    Data: 8-05-2026
Publicado na categoria: Eventos

Entre 1 e 3 de maio, a Serra da Estrela recebeu uma edição histórica do Oh Meu Deus by UTMB, marcada pela exigência, pela dimensão global e por uma afirmação territorial sem precedentes. Pela primeira vez, Portugal integrou oficialmente o circuito UTMB World Series, um marco que reforça a projeção internacional do evento e do território.

A estreia contou com mais de 2.000 atletas, provenientes de 62 países, num ambiente verdadeiramente multicultural. As distâncias de 20 km, 50 km e 100 km esgotaram meses antes da prova, sinal claro do crescente interesse internacional pela região e da capacidade do evento para atrair tanto atletas de elite como corredores amadores.

A entrada no circuito mundial trouxe uma nova escala ao evento organizado pela Horizontes – Turismo Desportivo. A logística foi reforçada, os percursos foram ajustados e a coordenação entre autarquias, populações e equipas técnicas atingiu um nível de maturidade que impressionou atletas e observadores. Seia assumiu o papel de centro nevrálgico da operação, acolhendo todas as metas e garantindo uma resposta sólida a um evento que, pela primeira vez, se apresentou com dimensão verdadeiramente global.

Um território marcado pela dureza e pela beleza

Ao longo de três dias, os atletas percorreram o maciço central da Serra da Estrela, desde a Lousã até à Torre, atravessando um território de contrastes profundos. A paisagem continua marcada pelos incêndios do último verão e pelos danos provocados pelo comboio de tempestades de fevereiro, que deixaram longos quilómetros de floresta queimada. Ainda assim, o verde que regressa lentamente e a floresta preservada do Parque Natural da Serra da Estrela ofereceram momentos de grande beleza, criando um cenário emocionalmente forte para quem correu.

A dureza do terreno, a irregularidade dos trilhos, as variações de temperatura e a altitude reforçaram a identidade do evento: um desafio físico e mental que exige preparação, resiliência e capacidade de adaptação. A passagem por aldeias de xisto como Fajão, Talasnal, Candal, Pena ou Sobral de São Miguel trouxe também uma dimensão cultural única, cruzando natureza, história e identidade serrana.

Populações envolvidas e um território que abraçou o evento

Um dos aspetos mais elogiados pelos atletas foi a forte envolvência das populações locais. Em cada aldeia, em cada ponto de abastecimento, em cada curva de estrada, houve apoio, incentivo e uma genuinidade rara. As autarquias dos concelhos atravessados – Góis, Arganil, Pampilhosa da Serra, Covilhã e Seia – trabalharam de forma articulada, garantindo segurança, mobilidade e condições adequadas para atletas e equipas.

Seia, anfitriã das metas, assumiu um papel determinante. A cidade transformou‑se num centro de celebração, com milhares de pessoas a acompanhar chegadas, aplaudir esforços e viver intensamente o ambiente UTMB. A dimensão internacional do evento trouxe também impacto económico imediato: hotéis esgotados, restauração reforçada e comércio local dinamizado.

Os “Viriatos”: quando 100 milhas não chegam

Um dos momentos mais simbólicos da edição foi a consagração dos “Viriatos”, com nove atletas que, após concluírem as 100 milhas (mais de 165 km e cerca de 9.000 metros de desnível positivo), decidiram prolongar o desafio com mais 40 km. Este reconhecimento, reservado a quem ultrapassa os limites convencionais da competição, evoca a resistência e a identidade da região, reforçando o caráter épico do evento.

Pódios oficiais das quatro distâncias

100M – 164 km (UTMB 100M)
Masculinos
1.º Rubén Dieguez Quiroga (ESP)
2.º Víctor Maneiro Freire (ESP)
3.º Rogério Pronto (POR)

Femininos
1.ª Paulina Krawczak (POL)
2.ª Marta Muixí (ESP)
3.ª Elena Vaseva (POR)

100K – 94 km (UTMB 100K)
Masculinos
1.º Thibaut Athané (FRA)
2.º Thibaut Garrivier (FRA)
3.º Genís Porqueras (ESP)

Femininos
1.ª Sílvia Puigarnau (ESP)
2.ª Marie Janod (FRA)
3.ª Ilona Kirsnė (LTU)

50K – 52 km (UTMB 50K)
Masculinos
1.º Ludvik Fernandes (FRA)
2.º Pedro Barros (POR)
3.º Aitor Pulgarín Arribas (ESP)

Femininos
1.ª Brígida Inês João (POR)
2.ª Sofia Vieira (POR)
3.ª Lucía Peón Santomé (ESP)

20K – 22 km (UTMB 20K)
Masculinos
1.º Miguel Silva (POR)
2.º Mário Coelho (POR)
3.º Álvaro Ramos Peña (ESP)

Femininos
1.ª Joke Descheemaeker (BEL)
2.ª Capucine Arbez‑Gindre (FRA)
3.ª Ana Carolina Oliveira (POR)

Um marco para o trail running português

A edição de 2026 do Oh Meu Deus by UTMB representa um ponto de viragem claro. Pela primeira vez, Portugal acolheu um evento do circuito UTMB World Series, posicionando o Centro do país como destino internacional de referência no trail running. A capacidade logística demonstrada, a qualidade dos percursos, a envolvência das populações e a resposta das autarquias mostraram que o território está preparado para receber eventos de grande escala.

O impacto vai muito além do desporto. Há um reforço da identidade territorial, uma valorização das aldeias serranas, uma dinamização económica evidente e uma projeção internacional que dificilmente teria sido alcançada por outros meios. A Serra da Estrela, tantas vezes associada apenas ao inverno, afirma‑se agora como destino de montanha para todo o ano.

2027 já começou

Com o encerramento desta edição, a organização iniciou de imediato a preparação para 2027. A expectativa é de crescimento, consolidação e reforço da presença internacional. O objetivo é claro: transformar o Oh Meu Deus by UTMB num dos eventos mais emblemáticos do circuito, mantendo a autenticidade da Serra da Estrela e elevando continuamente o nível competitivo e organizativo.

O Oh Meu Deus by UTMB foi mais do que uma competição. Foi a demonstração de que o território tem escala, identidade e capacidade para se afirmar internacionalmente, mesmo partindo de um contexto recente de adversidade. A montanha falou mais alto, e Portugal respondeu à altura.

Fotos: OMD

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