Badwater 135: João Andrade em entrevista

Autor: Redação    Data: 29-07-2021
Publicado na categoria: Entrevista

João Andrade é um empresário luso-brasileiro, ávido corredor internacional de ultramaratonas e cofundador e CEO do One Hundred Group Ltd. Com quatro anos de corrida, o currículo do conhecido como “Ultra CEO” averba já participações em provas de renome internacional, como PT 281+ Ultramarathon, Estrelaçor 180, Badwater Cape Fear e BR 135 Ultramarathon. Este mês, o ultramaratonista conquistou um brilhante 13.º lugar na mítica Badwater 135.

A prova cobre três cadeias montanhosas com um total de 4.450 metros de desnível positivo e 1.859 metros de desnível negativo. A dureza da Badwater 135 é sobejamente conhecida, tendo este ano sido contemplada ainda com as ondas de calor que varreram o oeste americano.

A 44ª quarta edição da prova decorreu entre os dias 19 e 20 de julho, tendo sido ganha por Harvey Lewis, naquela que foi a sua segunda vitória na prova. O norte-americano cruzou a meta com o registo de 25h50m23s. Na disputa feminina, a californiana Sally McRae foi a mais veloz, conquistando o 7.º lugar da geral, com um tempo de 30h48m47s. João Andrade foi um dos 68 finishers, alcançando o 13.º lugar, com o marca de 32h:56m:52s.

A trail-running.pt entrevistou o atleta, ficando a conhecer o que o motivou, as dificuldades que teve e o balanço que faz da sua prestação.
Como surgiu a ideia de participar na Badwater 135?
A minha participação na Badwater 135 é um sonho que me acompanha desde o primeiro dia que comecei a correr há apenas quatro anos em 2017. Posso dizer que a preparação para ser selecionado e todo o processo para estar em condições físicas e mentais para conquistar esta prova, foi responsável por uma grande mudança para melhor na minha vida.

O que fizeste nestes quatro anos com vista à realização do “sonho”?
Foram 4 anos de preparação, mais de 25.000kms de corrida em treino e mais de 10 provas recomendadas ou qualificativas acima das 100 milhas cumpridas em diferentes países e continentes (incluindo barreiras horárias para qualificação).

Qual foi o impacto da pandemia nos teus planos?
Deparei-me com a necessidade de fazer uma quarentena forçada de 14 dias no México antes de poder entrar nos EUA, devido às restrições de viagem. Esta foi mais uma dificuldade que se transformou numa oportunidade de trabalhar o processo de aclimatação. Apesar de no México a humidade ser bastante superior à registada no Vale da Morte, com as temperaturas entre os 38-39 graus centígrados, consegui fazer cerca de 350kms de treino de corrida, o que ajudou bastante.

O Vale da Morte é impiedoso e não deixa margem para grandes tomadas de riscos, pois estes podem ser premiados com um DNF ou várias horas perdidas em recuperação antes de voltar a colocar os pés ao caminho sobre a linha branca.

Já conhecias a prova? Foste surpreendido?
Quanto à Badwater 135, esta não deixou de me surpreender. Apesar de saber que esta é rotulada como a corrida a pé mais difícil do mundo, e de eu ter lá estado, em 2019, com o meu treinador e sócio Tiago Aragão, na equipa de apoio da atleta uruguaia Silvia Amodio, percorrer os 217 kms da base de Badwater até o portal do Monte Whitney, foi uma grande odisseia e um verdadeiro massacre.

O Vale da Morte é impiedoso e não deixa margens para grandes tomadas de riscos, pois estes podem ser premiados com um DNF ou várias horas perdidas em recuperação antes de voltar a colocar os pés ao caminho sobre a linha branca.

O que destacas na prova?
Sobre a prova destaco as temperaturas indiscritíveis e elevada sensação térmica, aliadas a um vento forte e tempo seco e ainda a total ausência de sombra com as temperaturas do asfalto a atingirem marcas assombrosas. O percurso parece ter sido desenhado pelo próprio Maquiavel e coloca à prova todos os recursos físicos e mentais do atleta. Ter saído na terceira vaga junto dos atletas teoricamente mais velozes, entre eles ex-campões Badwater e alguns dos melhores do mundo em distâncias extremas foi uma experiência a repetir e um estímulo adicional. O line up às 23:00 em Badwater Basin foi bonito de se ver e sentir. Um ambiente único.

Quais foras as maiores dificuldades que enfrentaste?
Sobre as dificuldades, sofri hipotermia do deserto na hora de calor a seguir à segunda grande subida e tive princípios de outra hipotermia já no inicio da noite antes da grande subida de Lone Pine para o Mount Whitney. Ambas as situações foram resolvidas rapidamente pois são relativamente normais nesta prova devido às condições climatéricas que os atletas tentam vencer. Estas foram as maiores dificuldades, sendo que o resto foi tudo ultrapassado como qualquer ultramaratona enquanto progredimos.
Que balanço fazes da tua prestação?
O balanço final é excelente na minha opinião, dado que o objetivo proposto para a minha estreia era antes de mais o de ser finisher e em segundo lugar de terminar nesta zona horária (32h:56m:52s e um 13.º lugar). O plano foi cumprido e serviu também como base para preparar uma nova participação, almejando um resultado mais ambicioso no futuro próximo, caso seja novamente selecionado para competir.

Já sonhas com uma nova participação?
Para já é recuperar e estudar as centenas de apontamentos tirados durante a prova para melhorar o que for possível numa nova participação e também voltar a realizar o processo para ser selecionado novamente, mas desta vez não como “Rookie” mas sim como “Veterano” da prova.

Uma prova para voltar a sonhar e repetir com ambições e objetivos renovados!

Fotos: Kendal Huntsman

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