Inês Marques brilha no Ultra Trail du Mont Blanc (entrevista)

Autor: Redação    Data: 6-09-2017
Publicado em: Entrevista
Inês Marques foi a atleta lusa que obteve melhor classificação nas provas do maior evento mundial de trail-running. O brilhante 5º lugar da classificação geral feminina na OCC (56 km 3.500m D+)  do Ultra Trail du Mont Blanc foi disputado com a elite feminina da modalidade.

Com 24 anos de idade, a atleta do U.F. Comércio e Indústria Atletismo é já uma referência do trail-running. Vinda do atletismo em pista e estrada, onde se iniciou aos 6 anos, Inês Marques despertou para o trail em 2014.

Em Junho, Inês Marques já havia brilhado como melhor portuguesa no Mundial de Trail (32.ª do escalão feminino), prova incluída no Trail Sacred Forests, em Itália.

Inês Marques completou o percurso de 56.3 quilómetros em 6h42m35s, batendo atletas como a múltipla vencedora do UTMB, Rori Bossio. A atleta lusa foi antecedida por Eli Gordon Rodriguez, Emelie Forsberg, Amandine Ferrato e Yuri Yoshizumi. Esta última superou Inês Marques por apenas um minuto e oito segundos.

No rescaldo desta grande exibição na meca do trail mundial, a Trail-Running.pt falou com a Inês Marques.
 
– Como te preparaste para esta prova e que expectativas trazias?

O plano de treinos para o OCC seguiu as mesmas linhas que a preparação para o Campeonato do Mundo de Trail, com um ou outro ajuste. Do plano fizeram parte corridas longas de estrada, treinos na Serra, rampas, séries na pista, reforço muscular. Em Agosto, corri o Ultra Trilhos Rocha da Pena para testar mais uma vez como me sentia num trail de longa distância (48km) e para aferir a alimentação.

Fui para o OCC com a ambição de uma boa classificação e tentar reverter a situação do mundial, onde certos aspectos não correram como tinha planeado, embora me sentisse mais preparada que nunca. Aliás, o trail é um desporto com algumas condicionantes que não conseguimos controlar, por isso, temos de nos preparar, na tentativa de antecipá-las e saber como reagir. Outro dos objectivos é sempre divertir-me e posso dizer que consegui fazê-lo, mesmo com o esforço inerente à prova, que foi muito competitiva. O ambiente vivido no Ultra Trail du Mont Blanc é indescritível!

– Quais as maiores dificuldades que sentiste?

Uma das maiores dificuldades foi a subida entre os abastecimentos de Trient e Vallorcine, a meio da prova. Foi a mais longa e sinto que ainda me falta alguma capacidade física para aguentar um ritmo forte neste género de subidas. Perdi algumas posições, passando de 5ª para 8ª classificada. Penso que o facto de não treinar tanto em serra como as minhas adversárias poderá ter pesado na diferença de ritmos. Contudo, tenho vindo a realizar treino complementar para fazer face ao facto de morar numa zona plana!

As más condições climatéricas também foram um obstáculo. Prefiro correr com piso seco e com uma temperatura mais agradável do que a que se fez sentir no Monte Branco! Só vesti o impermeável em Vallorcine e confesso que o devia ter feito com maior antecedência, pois senti frio nos pontos mais altos. Tentei calçar as luvas, mas como já estavam molhadas e tinha as mãos com pouca sensibilidade, só consegui vestir uma e acabei por seguir assim até à meta.

– Como descreves a sensação de ter lutado com algumas das maiores referências do trail-running?

Quando recebi um e-mail da organização do UTMB a informar que me iriam atribuir um dorsal de elite devido à minha pontuação ITRA, fui consultar a lista das atletas nas mesmas condições. Eu estava na 17ª posição do ranking da elite a participar no OCC e nomes como Rory Bosio, Emelie Forsberg e Amandine Ferrato saltaram logo à vista! Não é que me assuste com os nomes sonantes, mas nunca acreditei que poderia disputar os lugares mais cimeiros. Alcançar a Rory Bosio, atleta com um currículo invejável e de uma grande simpatia, na subida final, fez-me acreditar que posso chegar mais longe!

– Tiveste um final de prova fantástico e ficaste a uma distância mínima da quarta. Se a prova tivesse mais alguns quilómetros achas que podias ter chegado mais longe?

Podemos sempre pensar em vários “ses” – se não tivesse tido um percalço num abastecimento onde perdi muito tempo, se tivesse vestido logo o impermeável, se… Mas prefiro pensar que são situações que acontecem no decurso da prova e resta-me melhorá-las nas próximas competições.

Além disso, não tinha informação de que ia tão perto da 4ª classificada. Porventura, se a prova tivesse mais um km tê-la-ia apanhado, dada a minha recuperação final e por ainda sentir que cheguei com alguma folga. Mas lá está: a prova tinha 56.3km e não 57.3km.

Depois das brilhantes prestações no mundial e aqui no Mont Blanc, quais são as tuas ambições?

Gostaria de continuar a participar em trails a rondar os 50km. É uma distância que me agrada e que penso estar adequada à minha evolução no trail. Pretendo competir mais no estrangeiro, mas tudo dependerá dos apoios que possam surgir.

Também ambiciono continuar a conciliar o desporto com a minha carreira profissional na área do actuariado, um desafio para o qual não sei se estarei preparada. Contudo, com a ajuda dos que me são próximos e me apoiam incondicionalmente, os sonhos tornam-se mais fáceis de concretizar!

Foto: DR