O Trail de Poiares segundo Filipe Torres (Blog quarenta e dois)

Autor: Filipe Torres (Blog quarenta e dois)    Data: 14-02-2018
Publicado em: Race Report
Em todos os artigos que faço sobre as provas em que participo tento fazer uma descrição factual do percurso, organização, etc… e depois um relato da minha própria prova. Não participo em muitas, tenho escolhido cada vez mais e aponto quase sempre para aquelas que à partida são a meu gosto.

Este domingo corri pela primeira vez numa prova do campeonato nacional de trail. É raro fazer provas tão curtas, porque na verdade prefiro as ultra distâncias, mas ouvi falar muito bem do Trail de Poiares e como o fim de semana era conveniente juntei-me aos muitos colegas de equipa e fui até Vila Nova de Poiares. Quero com isto dizer que é muito importante separar aquilo que pessoalmente achei da prova e percurso das considerações que faço da organização.

Primeiro, vamos ao factos:

A organização do Trail de Poiares fez um excelente trabalho. Para quem não conhece a zona, a prova desenrola-se muito perto da Serra da Lousã, mas apesar do terreno ser muito parecido com o que se encontra na Serra, andamos em muito pouca altitude. O ponto mais alto anda pelos 300 metros. No entanto, o desnível foi de 1700m+ em 34km, o chamado desnível parte pernas. A subida maior tinha cerca de 150m+.

Esta é daquelas organizações que arregaçam as mangas. É impressionante a quantidade de trilhos abertos, num percurso que será à volta de 90% em single track. Impressionante também foi a quantidade de bombeiros presentes no, às vezes, muito técnico e propenso a quedas, percurso. Foi provavelmente a prova onde vi mais bombeiros.

Os 4 abastecimentos para 34km são suficientes e bem distribuídos, havia voluntários em todas as travessias de estrada e as marcações estavam perfeitas, não deixando a menor margem de dúvida. A logística de levantamento de dorsais está bem oleada e a estrutura de apoio na meta é impressionante. Não posso falar do almoço servido, mas já me disseram que estava muito bom e sem tempo de espera.

O kit entregue com o dorsal era excelente, com uma tshirt da 42k, uma pala preta e um par de luvas que me vai dar um jeitão! No final deixou de haver água quente no local destinado inicialmente ao banhos mas rapidamente a organização montou um sistema muito eficaz e rápido para transportar os atletas para um novo local onde, aí sim, a água estava muito quente.

Os factos dizem que foi uma prova impecável, sem falhas, e foi mesmo! Mas este é um blog pessoal e, como tal, agora vou deixar a minha impressão pessoal do Trail de Poiares:

Não precisava de muito mais, além do do perfil, para perceber que esta não era uma prova a meu gosto. No entanto, há provas com perfis parecidos, como por exemplo o Grande Trail das Lavadeiras, que acabo por gostar bastante e onde se consegue correr muito rápido. Depois de ouvir muitos elogios por parte dos meus colegas de equipa decidi arriscar. Infelizmente, há muito que não acabava uma prova tão saturado.

Como já expliquei atrás, as limitações de altitude associadas a um terreno parecido com o que se encontra na Serra da Lousã, ou seja, encostas muito inclinadas, mato muito cerrado, algum xisto e pedra e várias travessias de ribeiros, formavam um conjunto de factores que não deixava grandes hipóteses à organização a não ser inventar, e muito, para chegar ao desnível anunciado. O resultado foi um percurso por vezes muito técnico, com dezenas de encostas super inclinadas, ora a subir agarrado às árvores, ora a descer de rabo. Passámos por cima e por baixo de dezenas de troncos, numa constante solicitação de todo o género de músculos.
Nunca utilizei tanto as mãos numa prova. Também nunca caí tantas vezes. Foram raros os momentos a direito e muito frequentes as descidas em que não se podia pensar em muito mais além de não cair. Não demorou muito até ter a impressão que não estava a sair do mesmo sítio. Subíamos sofregamente uma encosta apenas para uns metros depois voltar a enfiar-nos no meio das árvores para descer novamente a mesma encosta e voltar ao rio uns metros abaixo.
Os trilhos, muitos claramente abertos com muito esforço e de propósito para a prova, por vezes pareciam não fazer muito sentido. Andávamos muitas vezes de lado nas encostas, a serpentear por troncos e mais troncos, agarrados a cordas, pedras e raízes. As descidas e subidas curtas eram uma constante, uma autêntica máquina de lavar roupa ligada na centrifugação.

O dia estava feio. Nunca choveu, mas esteve sempre a chuviscar. Muita humidade e a temperatura não muito baixa. Como andávamos sempre embrenhados nas árvores corria muito pouco vento, isso tudo associado ao tipo de percurso formava condições perfeitas para as malditas cãibras, não sei se algum dos 300 e tal conseguiu escapar imune a elas!
Foi uma prova muito dura. Surpreendentemente dura! Pelo percurso e pelo tempo, obviamente alheio à organização. Sofri muito mais do que esperava e, na verdade, vi-me à rasca para terminar! Acabei os últimos quilómetros saturado, farto de ali andar. Comecei a perder a concentração e caí algumas vezes, uma ou duas até foram quedas feias. Parecia que fazia a mesma descida e a mesma subida repetidamente, a certa altura fiquei com a sensação que passei o percurso inteiro a entrar e a sair de buracos!

Acabei com algumas mazelas e demorei 4h42 para cumprir os 34km. Mesmo assim fui 130º em cerca de 300, o que mostra bem a dureza da prova.

O prémio finisher era um íman para o frigorífico. Eu gostei!

Não gostei do percurso. É a minha opinião, não quer dizer que seja um mau percurso. Aliás, no final, ouvi muita gente maravilhada com o que tinha vivido. Ainda bem que é assim e que há provas para todos os gostos, esta simplesmente não era para mim.

Agora é altura de lamber feridas e preparar a próxima, que ainda não sei qual vai ser. O que sei é que o MIUT está quase aí, só faltam 2 meses e meio!

Fotos: Fotos do Zé