Tiago Aires em entrevista: “É como se tivesse uma segunda vida”

Autor: Inês Morais    Data: 23-01-2019
Publicado em: Entrevista

Tiago Martins Aires, 36 anos, desportista desde criança, praticou várias modalidades desde judo, andebol, natação, remo, escalada, ginástica, futebol para tentar colmatar o problema de asma, mas o desinteresse era mais forte e acabava por não praticar nenhuma modalidade por muito tempo.

Aos 16 anos encontrou na orientação aquilo que precisava e desde daí não parou de correr. Campeão mais de uma dezena de vezes em orientação, foi no trail running que encontrou uma segunda vida e uma nova oportunidade de explorar novos locais.

De mestre na orientação, em 2016, estreou-se no mundo do trail mas familiarizado com a corrida em trilhos, alcançou o título de campeão Nacional de trail e foi o melhor português no Mundial com um 13º lugar numa prova em casa.

A paixão pela natureza e por conhecer novos locais fez com que nunca se afastasse da corrida mesmo quando uma lesão no ano de 2017 o levou a desistir de quase um ano de provas e circuitos.

Em 2018 voltou aos trilhos com a certeza e a ambição que precisava para se consagrar Campeão Nacional de Skyrunning e conseguir um 11º lugar no Campeonato Mundial de Ultra Skyrunning, na Escócia.

2019 começou da melhor forma com o tão esperado e ambicionado apuramento para integrar a equipa da seleção nacional para o Campeonato do Mundo de Trail 2019 que vai decorrer no dia 8 de junho, em Miranda do Corvo.

Desde dos 16 anos que praticas Orientação, como é que o trail running passou também a fazer parte da tua vida desportiva a par com a orientação?

Surgiu naturalmente, por alguns factores, o primeiro, obviamente, tem a ver com o meu fascínio por conhecer locais novos. Apesar de ter praticado orientação durante cerca de 20 anos, no nosso país chega-se a um ponto que já se conhece, razoavelmente, bem todas as pessoas que praticam orientação, os clubes, os locais e com o trail tenho oportunidade de correr por outros trilhos.

Depois, o segundo fator, e talvez o mais importante é sentir que no trail running é como se ainda fosse novo, enquanto na orientação já sou velho, é um facto. E também poder mudar as rotinas de treino e alterar o meu planeamento dos treinos. E isto porque a orientação é um desporto “explosivo” e eu já não tenho velocidade para me debater com os melhores atletas ou com os mais novos. No trail passa-se, exactamente, o inverso. É como se tivesse uma segunda vida, senti que temos outra vez oportunidade de sonhar com melhores resultados, pesquisar planos de treino e como melhorar em pequenos aspectos. Sou um apaixonado por metodologias de treino e ver como é que posso limar pequenas arestas para melhorar a performance. Por outro lado, o trail tem tantos vários fatores que na orientação não existem, como: a alimentação, a suplementação, a paciência, a auto-superação, o facto de lutarmos connosco próprios durante tantas horas de prova são coisas que não tinha no meu passado e que tenho vindo a aprender.

Com um histórico de dezenas de provas feitas em orientação, começaste a correr em provas de trail running apenas em 2016. Como é que tem sido o teu percurso na modalidade?

O ano de 2018 foi bastante positivo, depois de 2017 ter passado o ano lesionado. Tem um significado especial, ainda mais se olharmos para trás mais um ano. Em 2016, depois de um ano de grande sonho, onde estabeleci objectivos e concretizei outros que nem os tinha no início da temporada, como, por exemplo, ir ao Campeonato do Mundo pela seleção nacional e ter conseguido um 13º lugar. Numa prova em que tive a maioria do tempo a lutar pelo top 8, só no fim é que as coisas não correrem assim tão bem.

O ano de 2016 foi fascinante porque em quase todas as provas em que participei, inclusive o Campeonato Nacional de Trail, fiquei em primeiro lugar ou bem classificado. A par disso também ganhei o Campeonato Nacional de Orientação.

No ano de 2017 estive lesionado com uma rotura no tendão de Aquiles, o que me impossibilitou de participar em provas. Em 2018 foi como um retorno ao ano de 2016.

Espero, agora, em 2019 espero fazer melhor, tendo sempre a consciência de que é difícil, porque cada vez o nível é maior. Mas também tenho feito por criar melhores condições à minha volta, as lesões nunca sabemos como serão, mas tirando esses factores indesejáveis e incontroláveis, penso que em 2019 consegui reunir uma série de condições que me podem levar finalmente a entrar no top 10 do Campeonato do Mundo.

A tua dedicação ao trail running é recente, mas já ficaste em primeiro lugar em várias provas nacionais e internacionais. Em que medida o facto de praticares tantos anos orientação te ajudou a teres alcançado tão bons resultados em tão pouco tempo no trail running?

Era impensável alcançar resultados tão bons sem ter um background numa disciplina de corrida, não há milagres. Para além de que tenho um passado desportivo ligado ao desporto da natureza. Já antes de saber o que era o trail running já fazia provas de montanha, provas de estrada e de atletismo, regularmente. Portanto a minha vida esteve sempre ligada à prática desportiva, principalmente, à corrida.

No campeonato de 2016 foste o melhor português em prova. Como é que te sentiste com uma classificação tão boa no ano em que te iniciaste na modalidade?

É das melhores recordações que tenho a nível desportivo, por isso é que tenho lutado tanto para estar ao mesmo nível ou melhor novamente no Campeonato do Mundo 2019, em Portugal.

Eu já participei em muitos campeonatos do mundo, não me lembro de quantos na orientação. E nunca tive o privilégio de correr em casa. Nessa prova no Gerês criou-se incontrolavelmente uma frase: “Mata mata, Puto”, que ainda hoje é utilizada para me incentivar e surgiu de um post no Facebook que publiquei e atingiu uma tal dimensão que, a partir disso, o público presente, mesmo pessoas que não conhecia, gritavam essa frase e fui-me arrastando um pouco mais e mais na classificação até chegar à meta. Isso é um momento que não me consigo esquecer e nos dias mais difíceis ou que a motivação não é tanta para lembro-me disso como algo que gostaria de tentar repetir. Mas mesmo que não se volte a repetir acho que vai ficar sempre na minha memória, foi uma experiência extraordinária.

De todas as provas nacionais e internacionais em que participaste no último ano qual é que foi a que excedeu as tuas expectativas, tanto ao nível da organização, como ao nível do percurso? Qual foi a prova em que tiveste mais dificuldades?

Neste último ano, participei em cerca de 11 provas de distância de 42 km ou superior. A que excedeu mais as minhas expectativas foi de facto a Ultra SkyRunning Madeira, onde estavam os melhores atletas do mundo. O percurso é fascinante, todos os atletas internacionais que vêm à prova ficam deslumbrados com a dimensão do percurso, a dificuldade, as paisagens. Na semana anterior à prova fraturei uma costela que pôs em risco a minha participação depois te der treinado tanto e afincadamente durante meses. E a minha performance nesse dia tendo em conta que estava lesionado não foi impedimento e consegui chegar em cima do 5º classificado, ficando em 6º lugar na prova.
A prova que me custou mais e que não correu nada, porque me senti mal, foi em Proença-a-Nova, ia tentar o apuramento para o Mundial de trail. Sabia que tinha treinado pouco, estava doente com uma virose e mesmo assim tentei acompanhar o grupo da frente na primeira parte da prova, mas depois foi um sofrimento até à meta e não achei um percurso muito bonito, por isso, foi a junção das duas coisas. Custou-me muito essa prova.

Em 2017, sofreste uma rotura no tendão de Aquiles que te afastou de um ano de provas e do Campeonato do Mundo. Como é que lidaste com isso e de que forma recuperaste de uma forma tão positiva no ano de 2018?

Foi uma lesão, provavelmente, por culpa própria. É uma característica constante na minha carreira, inclusivamente, já fui operado aos dois tendões. Estive parado esse ano, mas eu nunca parei de treinar e de sonhar que ia voltar mais forte. Treinei bicicleta, fazia grandes caminhadas, natação e ginásio, mas acima de tudo foi uma questão de perseverança. Nos últimos quatro meses de 2017 consegui dar as minhas primeiras corridas e notava-se que em termos cardiovasculares e de força não tinha enfraquecido.

Para quem se está a iniciar no trail, quais são os melhores conselhos que tens para essas pessoas?

O melhor conselho que posso dar é terem prazer naquilo que estão a fazer. A falta desse prazer é um dos problemas com que me deparo e é uma das razões para me ter lançado profissionalmente no planeamento de treino. Vejo vários iniciantes que acabam por praticar porque os amigos praticam ou porque está na moda e querem evoluir com a ideia que o resultado é a coisa mais importante. E tenho a certeza que essa forma de pensar o trail não é sustentável. Custa-me assistir a casos assim, porque até são atletas que mostram que gostam bastante de correr na natureza, mas focam-se apenas na obtenção de classificações boas ou estão preocupados em compararem-se a outros atletas, não tendo em conta o passado desportivo e genealógico que têm e estão a comparar-se, simplesmente, em preconceitos ou hierarquias mentais que fazem. Até porque atrás disso têm planos de treino com tentativas de darem passos maiores que a perna e em provas muito longas e intensas acabam por se desmotivar e, para mim, não é de maneira nenhuma a beleza do trail. A beleza do desporto está nas pessoas sentirem que partilham o mesmo espaço e que usufruem das paisagens dos locais, se aquilo for apenas um sofrimento perde-se essa grande vantagem.

Neste momento, consegues dedicar-te a tempo inteiro à modalidade? Com que apoios podes contar e quais são os teus patrocínios, neste momento, no trail?

O meu sonho desde de criança foi o de ser atleta profissional e nunca estiver perto de o ser. A nossa realidade em Portugal não é nada fácil e exequível e poucos são os desportos em que isso acontece. Os patrocínios não são suficientes para pagarem os custos de participação nas provas, nem o alojamento, nem as viagens, por exemplo.

Eu sou cartógrafo a nível profissional e, neste momento, é o que me dá sustentabilidade financeira. Faz com que viaje muito pela Europa e trabalhe, principalmente no verão, nos países nórdicos. Por isso, é que, muitas vezes, as pessoas ao verem fotos minhas a treinar na Noruega ou na Suécia pensam que estou a estagiar, mas na verdade aproveito para correr depois do trabalho.

Sem dúvida que o meu grande objetivo era conseguir que uma marca ou entidade me pudesse apoiar durante dois ou três anos para eu tentar alcançar os meus sonhos em campeonatos mundiais e circuitos. Os meus apoios são, principalmente, amigos e marcas que se mantiveram ao meu lado mesmo quando estive no fundo do poço com a lesão no tendão e grande parte das pessoas diziam que não iria voltar a correr.

A Tailwind é uma marca de nutrição que para além de trabalhar com pessoas que gosto muito também é um produto que sinto a necessidade de utilizar em provas de trail. Tem características que a diferenciam de outras por ser um produto desenvolvido para este tipo de desportos e que tem inúmeras vantagens para o desempenho físico e a de não provocar enjoos. A verdade é que investia muito dinheiro em sapatilhas e nos últimos anos não tenho esse problema com o apoio da 4Run, que é uma loja de equipamento de corrida, focada no trail. A Hoka One One é uma marca de calçado de corrida, que através da loja 4Run me patrocina.

E tenho amigos que me ajudam como massagistas, fisioterapeutas, osteopatas, treinadores. Apesar de ser o meu próprio treinador gosto de trocar ideias com eles para melhorar certos aspetos.

Quanto aos treinos: quais são os teus principais cuidados na preparação das provas em que participas?

Em relação à alimentação, sou um apaixonado e, por vezes, demasiado fundamentalista e preocupado com aquilo que como. Sei que para chegar qualquer prova tenho que estar em forma e para isso é necessário ter restrições alimentares.
Não é fácil explicar em duas ou três frases, porque há várias teorias e métodos e algumas coisas resultam com uns e outras não. Mas, de uma forma geral, tenho que chegar o mais leve possível às competições. A alimentação vai variando consoante o nível das provas em que participo, para os campeonatos mundiais tento estar na ordem dos 63/64 kg, enquanto, normalmente, peso 71/72kg. Esta perda de peso exige bastante sacrifício e cuidado e, deste modo, não é possível manter o ano todo. Tenho o máximo de cuidado e atenção ao tipo de nutrientes e proteínas que consumo. Evito ao máximo produtos processados e dou prioridade a alimentos mais naturais e tento perceber quais são as suas particularidades e os benefícios de que cada um tem para mim.

Como é que geres o teu calendário de provas? Quais são os teus planos para este novo ano?

Normalmente, em outubro ou novembro tenho o calendário de provas fechado para o ano a seguir. Para 2019 planeei um calendário A e B. Este ano não tinha a certeza se ia conseguir o apuramento para o Campeonato do Mundo de Trail 2019, no dia 8 de junho, era um grande objetivo e consegui-o no passado dia 13 de janeiro e, por isso, mantenho o plano A com o calendário organizado para estar na minha melhor forma para essa prova. De qualquer maneira, tinha delineado um plano B para planear o treino de forma a inserir uma prova importante perto da data do campeonato do mundo para me manter motivado.

Domingo vou fazer o Louzan Trail que vai ser uma prova no local do Mundial de Trail, por isso, é uma oportunidade de voltar à Lousã e de fazer o circuito como forma de preparação, apesar de ainda não estar em total forma física. Depois vou correr no Campeonato Regional de Ultra Trail em Porto Santo, Madeira, no início de março. E vou ao Campeonato Nacional de Ultra Trail, na Serra da Estrela (Estrela Grande Trail). E a partir daí focar-me apenas no Campeonato do Mundo. Durante o verão, tenho planeado fazer duas a três provas para usufruir, porque gosto realmente de correr e de conhecer novos locais e aproveito a forma física que espero adquirir para também para fazer o Circuito Internacional de SkyRunning.

Neste momento, o trail running é o que me ocupa a maior parte do meu tempo, não só pelo tempo dedicado ao treino, mas também pelas preocupações na planificação dos treinos. Por outro lado, vão surgindo oportunidades profissionais e neste momento estou a planear treinos oficialmente a atletas. A par disso lancei, há pouco tempo, um site pessoal: tiagoaires.com, é um projecto que já ambicionava fazer e com a ajuda de alguns amigos consegui. Tem todas as vertentes desde da planificação de treinos à organização de campos de treino e viagens, por exemplo, a Marrocos e à Noruega.

O campeonato mundial vai realizar-se pela 2º vez, em 4 anos, em Portugal. Qual é a importância para os atletas e para o desporto que elas se continuem a realizar em território nacional?

Para os atletas não há coisa mais motivante do que correr no próprio país e saber que as pessoas vão aderir e estar ao longo do percurso a apoiar. Como o trail running é uma modalidade já com alguma visibilidade pelos media e as marcas desportivas apoiam, há cada vez mais pessoas que acompanham e atletas a participar.

Ao sabermos que temos tempo para nos preparar, vamos ter estágios no local e é uma zona que todos conhecemos relativamente bem, acaba por ser muito positivo para os atletas portugueses selecionados.

Para a modalidade em si é uma oportunidade de crescermos ainda mais, porque os media e as marcas vão estar com atenção e espero que daqui a um ano a dimensão do trail seja ainda maior. Nesta lógica podemos dar um salto qualitativo em que, por exemplo, as provas passem a ter um prémio monetário para que os atletas tivessem melhores condições financeiras para participarem em provas internacionais.

Seres apurado para o Campeonato do Mundo era um dos teus principais objectivos para este ano. O que é que significa para ti ter esta oportunidade de representares Portugal, pela 2ª vez, num mundial?

Significa que tenho uma enorme responsabilidade, em primeiro lugar, mas tenho um orgulho imenso por ter conseguido porque eu sei o que trabalho, sei a dedicação que tenho ao desporto há muitos anos. Sei que os outros atletas treinam diariamente, ambicionam e lutam mas tenho a certeza que, salvo algum imponderável, me vou preparar muito bem e tentar ao máximo entrar no top 10 e melhorar o meu resultado de 2016.

Pensar no dia da prova e saber que vão estar presentes os melhores do mundo é o que me dá energia, diariamente, para ser disciplinado no treino. O mais difícil foi todo o processo para conseguir o apuramento porque tive que me preparar logo em janeiro e é uma altura em que não costumo estar em plena forma física. Senti uma pressão nas semanas anteriores à prova porque me questionava se estaria preparado o suficiente, felizmente, esta fase está ultrapassada e a partir de agora vai ser fácil manter-me focado.

Porém, defendo que deve haver momentos em que os atletas têm que demomstrar que merecem porque isso nos faz crescer não só na componente física, mas em componentes tão ou mais importantes, como saber gerir o tempo e a pressão, saber estar bem no dia certo e portanto estou satisfeito por ter conseguido passar esta etapa.

Dentro do mundo do trail tens algum atleta que te inspires para continuar a competir?

Há atletas que me inspiraram toda a vida mas em orientação e atletismo. Eu admiro o trail running e tenho muitas referências no mundo do desporto, em geral, mas não tenho nenhum atleta que me inspire a ser como ele assim, uma das razões pode ser porque cheguei tarde à modalidade.

Quero chegar o mais longe possível e um grande amigo meu costuma dizer que se nós tivermos ídolos nunca seremos o número um. Pode soar arrogante, mas faz sentido para mim. Não quer dizer que eu não participe em provas com grandes atletas como o Jonathan Alban e não o admire. É um atleta transversal e consagra-se campeão em várias modalidades dentro da corrida. A verdade é que é um atleta que tenho como referência no SkyRunning.

Fotos: DR; João Ferreira, Lente do Giló; Eurafrica Trail