Dário Moitoso em entrevista

Autor: Alexandra Simão    Data: 7-11-2019
Publicado em: Entrevista

Com 25 anos de idade e 4 anos de trail-running, Dário Moitoso, atleta do Clube Independente de Atletismo Ilha Azul  (CIAIA), é o actual campeão nacional de trail. Açoriano, natural do Faial, Dário encontrou o trail após uma lesão no futebol e através do Azores Trail Run. O seu percurso tem sido meteórico, sendo já uma referência no panorama nacional. Em 2018 já se tinha classificado em segundo lugar no Campeonato e na Taça de Portugal. A nível internacional já deu nas vistas na OCC do Ultra Trail du Mont-Blanc, com um nono lugar em 2018 e um sétimo lugar na edição deste ano. No Mundial de Miranda do Corvo foi o quarto melhor português.

A Trail-Running.pt quis conhecer melhor o Dário e a Alexandra Simão encarregou-se de o entrevistar.

Antes de iniciarmos propriamente a nossa entrevista, com todas as questões que gostaria de colocar, quero primeiro saber quem é o Dário.

Começaste logo com uma pergunta difícil!

Sou tímido. Não gosto de ambientes com muita azáfama. Adoro a natureza, o seu silêncio, a sua tranquilidade e a sensação de calma e liberdade que ela transmite. O desporto faz parte do meu dia-a-dia de uma forma muito presente; e o trail, mais do que um hobbie, é, para mim, uma forma de vida. Valorizo as sensações que me desperta, os valores e lições que me ensina e as pessoas que traz à minha vida. Sou trabalhador, disciplinado e ambicioso.

És a primeira pessoa que me faz uma entrevista, que me pôs a pensar a sério!

Sabemos que o trail, neste momento, faz parte da tua vida. Como é que isso aconteceu? 

Começou por curiosidade, em 2014 por culpa do projecto Azores Trail Run… Sempre fiz desporto, mas dedicava me principalmente ao futebol, até que me lesionei e deixei de jogar. Mais tarde  ouvi falar de uma corrida que passava pelos trilhos principais cá da ilha e em 2015 faço a primeira competição, o “Trilho dos 10 Vulcões”, que correu bastante bem e identifiquei-me logo com os valores deste desporto.

Parece-nos então que o trail surge por mero acaso na tua vida, ou talvez não, não é? Sentiste logo desde início que este seria o teu desporto de eleição?

Pode-se dizer que surge por acaso, e sim, senti logo que seria o desporto para mim, não só pelos valores mas também pelas condições únicas que os Açores possuem para a sua prática, quer seja de inverno ou de verão!

Falaste-nos aí dos Açores! E não fosses tu natural do nosso arquipélago! Sentes que os Açores são o ex-libris para a prática do trail? O que te fascina mais? 

São um lugar único sem dúvida, pela diversidade de trilhos que encontramos, pela história que contam! Cada ilha tem as suas particularidades e diferenças, que a tornam uma experiência única!

Fascina-me esta diversidade… Por exemplo, aqui no Faial tanto podemos estar “perdidos” em floresta densa, como no meio dos pastos verdejantes e até correr no cenário árido e lunar que é o Vulcão dos Capelinhos, o território mais novo da Europa!

Fascina-me a insularidade. O mar, a montanha!

A tua descrição fez-nos voar até aos Açores e imaginar como será correr aí.. que descrição maravilhosa! É de facto um lugar único para correr e/ou caminhar!  Consegues imaginar, num outro lugar do mundo, se é possível correr como se corre nos Açores? Ou é, de facto, algo único?

Acredito que todos os lugares sejam únicos e especiais, com as suas diferenças culturais e de costumes! E também aprecio muito isso numa corrida/prova!

Posso apenas afirmar que, para mim, correr nos Açores é ainda mais único e ainda mais especial (mesmo fazendo milhares de kms cá). Poderemos pensar que isso acontece apenas pelo facto desta ser a minha terra, o que me faz sentir este apego quase que identitário… Mas, na verdade, os Açores são, objectivamente falando, um paraíso na terra para os amantes de trail, pelos trilhos fantásticos que oferecem, pela natureza pura e selvagem que experienciamos, pela beleza única das paisagens, pelas diferenças e complementaridades de cada ilha, pela sua riqueza cultural, pela genuinidade das suas gentes… Não faltam razões!

Que descrição brilhante do que é correr pelos trilhos dos Açores!! Dário, deixaste-nos, a todos, com uma vontade enorme de ir aí! Sabias? Aproveito até para confessar que já corri também nos Açores e que a forma como Dário descreve é exactamente aquilo que sentimos quando lá vamos! Obrigada, Dário, por este momento de nostalgia é saudade!

Bom, e a entrevista não podia acontecer se não falássemos da tua grande conquista no passado mês de setembro, o título de campeão nacional de trail.  Comecemos, talvez, pelo início?  Como é que foste “chamado” a participar na prova?

Bem, o início… eu adoro a competitividade e correr contra os melhores é a melhor forma de aprender e evoluir! O ano passado fui ao campeonato nacional em Sintra e fiquei em segundo, a 2 segundos do primeiro, e claro ficou aquela vontade de repetir e tentar novamente.

Vejo cada prova como a mais importante da época e depois penso na próxima.. tinha acabado o OCC (UTMB), estava a sentir-me muito bem e super motivado e foi apontar foco máximo ao Grande Trail Serra d’Arga! O resto já sabem …

O resto queremos saber por ti! 
Conta-nos que sensações tiveste… Como é que te sentiste? O que é que ias pensando?

Senti-me sempre muito bem, o objetivo passava por não exagerar na primeira metade da prova e tentar não distanciar muito da frente da corrida, nesta altura conseguia não pensar em nada a não ser na gestão/estratégia da prova! Consegui deixar os sentimentos de lado…

A partir de metade, mais ou menos, começou a complicar… O primeiro lugar começava a ficar longe (chegou a estar a 5 minutos), estava em segundo com o André e aí começou a prova psicológica! As assombrações do ano anterior em Sintra, as dúvidas, “será que ataco”, “talvez não, 5 minutos é muito tempo”, “e agora?”.

Consegui manter-me de cabeça fria, afastar-me do André e ficar sozinho no meio daquela tempestade (até gosto!!) num lugar completamente desconhecido para mim e onde não se via 50 metros à volta. É nestas situações  que vemos o quanto somos pequenos no meio da natureza!

Quando comecei a aperceber-me que estou a ganhar terreno, tudo mudou. Cheguei ao último abastecimento (a 6 km do fim), estava lá o Mário e disse-me que era possível e que era altura de arriscar! Saí de lá a acreditar e pouco mais à frente estava em primeiro! A poucos kms da meta é que comecei a cair em mim, a pensar no que estava prestes a acontecer, e nas pessoas que mais me apoiam… Foi uma descarga de adrenalina enorme! Foi uma das melhores sensações que tive este ano!

A quantidade de pensamentos que percorrem a nossa cabeça em tão pouco tempo! Não é verdade? Para além de toda a gestão de prova que tinhas que fazer, tinhas que tentar controlar as emoções para que elas não interferissem no teu desempenho.. mas parece-nos que a determinado momento foram elas que te disseram “Dário, estás à espera de quê? Vamos”. 

Cortaste a meta, na Serra d’ Arga em 1.º lugar, Dário! Que sensação foi essa? O que é que sentiste? Que coisas boas te disseram quando chegaste?

Foi uma sensação única! Foi o concretizar de um sonho, de um ano de muito trabalho! Só pensava nas pessoas que me apoiam mais de perto.. Esta conquista não foi só minha! Quanto ao que me disseram quando cheguei, não me consigo lembrar de tudo, mas foram sobretudo palavras de parabéns pela conquista.

Acreditamos que tenha sido um dos momentos mais marcantes e mais emocionais que alguma vez já vivenciaste! 
Falemos agora do futuro… quais são os planos… os objectivos… as próximas aventuras ou sonhos? 

Para já ainda não está nada definido, mas espero acima de tudo continuar a desfrutar deste desporto, e os resultados, sejam quais forem, vêm por acréscimo! E para além de desfrutar, se tiver oportunidade de conhecer lugares e pessoas novas, será muito bom!

Que bom que é conhecer alguém que vai usufruindo do melhor que o trail nos dá: a relação com as pessoas. 
Para alguém que está decidido a querer participar numa prova de trail, o que tens a dizer a essa pessoa? 

O meu conselho é que procure, acima de tudo, desfrutar do ambiente, das paisagens, da interacção com as pessoas… Em suma, para não pensar nos resultados e usufruir verdadeiramente da prova.

Numa última frase… se tivesses que descrever a prática de trail, como a descreverias? 

“And into the forest I go, to lose my mind and find my soul“  – John Muir

Obrigada, Dário! Que bom que foi podermos conhecer-te melhor e saber a importância que dás à prática do trail na tua vida! Obrigada pela tua sinceridade e pela emoção que transmites através das palavras!

Fotos: GTSA; ClickFaial (Hildeberto Garcia); ClickFaial (Pedro Silva)