Mariana Machado – “O trail foi paixão à primeira vista”

Autor: Alexandra Simão    Data: 6-06-2019
Publicado em: Entrevista, Perfil

Mariana Machado, 27 anos, fisioterapeuta e osteopata, vai representar a seleção nacional de trail no Campeonato do Mundo de Trail 2019, em Miranda do Corvo. A Alexandra Simão foi conhecer a atleta famalicense, uma das contempladas com a atribuição de um wildcard por parte da equipa técnica da ATRP Associação de Trail Running Portugal e uma das maiores promessas do trail running nacional.

Imagine que estava a apresentar a Mariana a alguém. Quem é a Mariana?

A Mariana é uma apaixonada por desporto, viagens, natureza,  e pela liberdade… Liberdade de aproveitar as 24horas do dia para realizar as mil e uma tarefas que define no dia anterior!  Não aguenta por muito tempo o silêncio, a quietude e o relaxamento… Tem intrínseco ao seu ser a azafama do dia a dia, as 12horas habituais de trabalho e o resto das horas para praticar desporto e descansar. A Mariana é destemida, disciplinada, ambiciosa, insatisfeita , divertida mas além de tudo uma pessoa cheia de sorte por ter ao lado uma família e um grupo de amigos que a suportam mesmo quando ela tem de fazer sacrifícios e por vezes não está tão presente na vida deles.

De que forma o Trail Running entrou na sua vida? 

O trail foi paixão à primeira vista, principalmente quando fiz o primeiro trail longo (Serra D’Arga 2017). Como sempre gostei de desporto, experimentei já várias modalidades e após pôr término à minha carreira no futsal à 2 anos, comecei por prazer e distração a correr com o meu pai e o grupo de amigos. De umas provas a acompanhar os meus pais e os meus tios foi um salto rápido para começar a ter ambição e objetivo de evoluir na corrida e treinar mais e melhor. Serra D’Arga encantou-me ao ponto de preferir longas distâncias e principalmente correr no meio da Natureza e paisagens desconhecidas.

Sabemos que correr em trilhos exige muita preparação, tanto física quanto psicológica. De que forma de prepara? É acompanhada? 

Após um ano de 2018 que excedeu totalmente as minhas expetativas em termos competitivos, decidi aumentar o nível de exigência dos meus treinos e tentar alcançar. Atualmente tenho acompanhamento por parte de um treinador de Altetismo e estou incluída no projeto Running Force. Um projeto com atletas olímpicos e outros de grande nível que me ensinam e me fazem “sonhar” e lutar para conseguir atingir o nível deles. Treinar num grupo assim faz com que consiga perceber melhor e conseguir viver a exigência psicológica e física do “mundo” da competição. Ao nível da alimentação, que tipo de cuidados tem? Que conselhos dá ao nível da alimentação a pessoas que pratiquem a modalidade? É acompanhada nesse âmbito? 

Como sou uma apaixonada por desporto e pela área da saúde, a alimentação é uma área que pesquiso e estou atenta, ao ponto de já ter uma pequena formação de nutrição desportiva. Na minha opinião faz parte dos 4 pilares do Atleta (sono, alimentação, treino, psicológico). A alimentação é a fonte de energia, é as reservas de glicose e consequente glicogénio que o corpo vai buscar quando estamos por exemplo nos últimos kms de um ultra trail ou de uma maratona, é a proteína, o ferro, o fósforo e o magnésio que necessitamos para a recuperação/regeneração muscular.

Relativamente à minha alimentação é muito regrada e com algumas restrições alimentares por questões de saúde simplesmente. Não consumo carne e lactose à 4 anos e reduzo a quantidade de hidratos de carbono no dia a dia,mas dias após a prova aumento está ingestão. O meu exemplo pode não ser o perfeito mas quero deixar o conselho que é importante definirmos a nossa alimentação para os nossos objetivos e tudo é uma questão de hábito, não é o facto de ter crescido a comer 70% carne que me dificultou a decisão de não a consumir atualmente.

Vamos preparar uma prova importante! Que tipo de cuidados tem nas semanas anteriores?  

As semanas anteriores não definem o trabalho que temos tido desde de Fevereiro para esta prova, mas é importante nunca esquecer os 4 pilares que falei anteriormente. Principalmente tento diminuir as horas de trabalho, dormir as 7horas, recuperar após treino com exercícios de mobilidade e alongamento e aproveitar todos os conselhos que vou pedindo a pessoas mais experientes para chegar na máxima força tanto a nível físico e psicológico.

E no dia da prova? Que tipo de cuidados tem? 

No dia da prova mentalizo-me que é um dia importante mas não deixa de ser mais um dia que vou tentar ser feliz, aproveitar todos os momentos e agradecer tal oportunidade. Gosto de acordar cedo, tomar o pequeno-almoço habitual e ouvir música.

Foi convocada para representar Portugal no Campeonato do Mundo, na prática de Trail. Como foi receber essa notícia?  

Até o dia de hoje foi um dos momentos mais felizes da minha vida, admito mesmo que não contive as lágrimas, era um sonho que jamais pensei alcançar este ano. Recebi a notícia por telefone do selecionador na minha hora de almoço e deu-me uma sensação única de pegar nas sapatilhas correr no meu “monte” contar a notícia à minha família e deixar a tarde de trabalho de lado. Sei que parecia uma criança a rir-me em todas as consultas que dava.

De facto, representar Portugal traz-nos, sempre, uma responsabilidade acrescida. Quais é que são as principais expetativas? 

Só no primeiro estágio ao vestir a camisola com o símbolo da nossa federação é que calquei o chão e todo o mundo acordou à minha volta para me fazer acreditar que estava a representar o meu país.

Quero honrar e agradecer toda a confiança e ajuda que me depositam e lutar na prova para lá do meu limite. Ser uma das portuguesas que simboliza todas as mulheres que correm e se esforçam em todas as provas para alcançar a meta dá-me a grande responsabilidade de realizar a prova no máximo da minha capacidade e espero surpreender.

Para alguém que está, agora, a iniciar corrida em trilhos, quais os principais conselhos que quer dar a essa(s) pessoa(s)? O que é realmente importante? 

Para mim no Trail é preciso muita capacidade de sacrifício, dedicação e força mental. Muito mais das capacidades físicas a nossa força vem da cabeça e do coração, por exemplo aquelas subidas duras tornam-se mais fáceis se as virmos como um obstáculo que nos leva ao cume mais bonito. Tenho alguns pensamentos habituais em prova como por exemplo; a beleza das coisas está quando lutamos por elas e são os momentos que mais nos desafiam que definem o que somos. Além disto, é importante saber treinar, progredir de uma forma consciente (não ir de uma rotina de trail curto logo para um ultra trail) e nunca esquecer  o que vai para além da corrida (alimentação, saúde e bem estar).

Há, com toda a certeza, algo “mágico” quando se corre na Natureza. Do que difere da corrida em estrada? O que motiva?

Eu treino sempre em estrada e até em pista e sem dúvida que quando vou para a natureza me sinto livre e mais feliz. Escolhi o Trail mesmo por esta sensação, é único correr com as paisagens de montanha e mar em sintonia ou subir ao topo da montanha mais alta, e a nível psicológico ajuda-me imenso não conhecer o que me espera em cada km, o fator surpresa faz-me estar sempre atenta e motivada para correr cada kilometro. Fico triste por agora em provas não conseguir usufruir totalmente das paisagens onde corremos, é os sacrifícios da competição.

Numa frase… Se pudesse descrever a prática de Trail Running, o que diria? 

Se não te custa conquistar algo é porque não desfrutas desse facto.

 

 

Alexandra Simão é psicóloga clínica e praticante de trail running.

Fotos: Matias Novo; Marco Barbosa