O campeão que não gostava de correr

Autor: Inês Morais    Data: 27-12-2017
Publicado em: Perfil

A corrida não era o seu desporto de eleição. Quando participava no Corta-Mato escolar, chegava a passar por baixo das fitas que delimitavam o percurso para correr menos e chegar à meta mais rápido. Apesar da tentativa de escapar ao cansaço, acabava sempre por ser o último a terminar. Hoje é o campeão nacional de ‘trail running’.

Romeu Gouveia descobriu o talento e a paixão pelo ‘trail running’ há cinco anos. Em 2013, foi convidado por dois amigos a participar no ‘trail’ Meda de Mouros. O seu espírito aventureiro e companheirismo fizeram-no aceitar o desafio. Esta prova foi a primeira organizada pela Associação Recreativa e Cultural da pequena aldeia de Meda de Mouros, no concelho de Tábua, de onde é natural. Depois de ter terminado aquela que seria também a sua primeira competição, afirma “acordei o bichinho do ‘trail’”.

Nessa altura, o jovem atleta não tinha qualquer conhecimento acerca do ‘trail running’. Era uma modalidade pouco praticada em Portugal. Os participantes eram escassos e as pessoas só viam por curiosidade. É um tipo de corrida realizada por trilhos técnicos, pela floresta ou montanha onde, muitas vezes ”só se chega a caminhar ou a correr”. Nessa adversidade, há uma grande oportunidade de conhecer sítios escondidos e usufruir da natureza de uma maneira única.

Desde criança que Romeu esteve sempre ligado ao desporto. O seu interesse e modalidade de eleição era o futebol, aliás, como na maioria dos rapazes mais novos. Até aos seus 14 anos, jogou futebol de salão federado na equipa da Associação Recreativa Cultural de Espariz (ARCE), tendo depois passado por mais um clube de futebol da região, mas sem grande relevância no seu percurso. “Uns tempos depois deixei as botas de lado”, para calçar as sapatilhas de corrida e nunca mais as largar.

Agora, com 20 anos, já conta com a participação em dezenas de provas nacionais, campeonatos europeus e mundiais de topo na modalidade, alcançando a maioria das vezes um lugar no pódio.

A Maratona MIUT (Madeira Island Ultra-Trail) é uma das grandes provas nacionais. O jovem alcançou o primeiro lugar no escalão Sub-23, tendo já o objetivo de participar novamente no próximo ano. Em 2017, participou no Campeonato do Mundo SkyRunning Juniores, que teve lugar em Andorra e no Campeonato Europa KmVertical Elite, em Limone, Itália.

As três provas são das competições mais complexas a nível técnico, principalmente por serem em altitude e com condições atmosféricas adversas. É ali que tem a oportunidade de subir a fasquia e competir com os melhores. Porém, Romeu já deu provas das suas capacidades como atleta, obtendo sempre bons resultados mesmo nas provas internacionais, para as quais é apurado a nível nacional. Quando vai participar em competições fora de Portugal, não tem a oportunidade de fazer o reconhecimento do percurso, o que aumenta a dificuldade do ‘trail running’, “é uma superação individual constante”.

A sua ambição, além de continuar a competir, é de abrir uma empresa de desportos na natureza na região de Coimbra. Tem o propósito de que mais pessoas explorem e experienciem o trail running. Por isso, decidiu iniciar este ano uma licenciatura em Desporto e Natureza, em Rio Maior. “Ainda há muito por explorar e conhecer nesta região, gostava que mais jovens e até adultos experimentassem o trail” para procurarem na natureza a “liberdade” que ele encontra cada vez que calça as sapatilhas e corre.

Durante a semana, mesmo estando longe de casa, treina todos os dias, faz treinos de recuperação de corrida, natação e ciclismo, durante uma hora e meia. Ao fim de semana faz treinos mais longos e intensivos, feitos na Serra da Lousã, na Serra da Estrela e na Serra do Açor, que chegam a durar três horas.

Além da preparação física e dos treinos diários, “não basta talento” para fazer o que ele faz. Menciona a genética como um forte fator para aguentar as provas de elevado grau de dificuldade técnica e pelas longas distâncias dos percursos. Depois de fazer dos percursos mais difíceis, tanto em Portugal como na Europa, nunca se lesionou a praticar ‘trail running’. Teve apenas um imprevisto quando, há cerca de dois anos, a jogar voleibol, acabou por sofrer uma lesão no tornozelo que o obrigou a parar de correr durante alguns meses.

Trocou muitas noites de saídas com amigos, almoços e jantares em família, para chegar ao patamar onde chegou. Filipa, a sua namorada, apoia-o desde que enveredou por esta vida de atleta. Quando pode é a primeira a acompanhá-lo nas provas e a estar na meta à sua espera. Perto de cinquenta provas feitas, dezenas de horas de treinos, a paixão pela natureza e pelo ‘trail’ levou Romeu Gouveia a ganhar o título de campeão nacional de ‘trail running’ este ano.

Hoje, vê no ‘trail running’ um modo de vida, uma maneira de estar em constante contacto com a Natureza de uma maneira “radical e apaixonante”. “Todas as pessoas deviam experimentar e depois praticar mais a modalidade. É uma maneira de usufruir da natureza com o devido respeito”, afirma o jovem atleta. Apesar de serem provas em que, por vezes, chegam a participar milhares de pessoas que vão para competir ou simplesmente caminhar, há uma forte consciencialização e respeito pela natureza.

Não tem qualquer mania, ritual ou reza antes das provas. O único pensamento é desfrutar do ambiente que o rodeia e conseguir chegar à meta num bom tempo, sem contratempos.

Foto: Fotos do Zé
Texto publicado originalmente no jornal “Z”