O trail (uma reflexão)

Autor: Diana Coimbra Gaspar    Data: 25-12-2017
Publicado em: Opinião

Sapatilhas para todos os gostos e feitios, marcas e terrenos. Calções curtos ou compridos e algumas saias elegantes e com classe que podem acrescentar leveza e charme ao momento da corrida. Camisolas mais coloridas ou discretas, mas quase todos elas com histórias, compromisso e honra. Alguns de lenço outros sem, outros com fitas, bonés ou gorros…há de tudo para todos e cada um vai de acordo com a sua identidade – mas em todos a mesma vontade – correr serra a cima serra a baixo, com um sorriso no rosto.

Embora as diferenças sejam claras e subjetivas, enquanto correm, não há médicos nem doutores, sapateiros ou professores, vendedores ou agricultores. São todos iguais na vontade, no espirito e na entrega. Há sempre vencedores e vencidos, há sempre os que se perdem e aqueles que se conseguem sempre encontrar. Há vontade de vencer e de mostrar quem corre mais e porquê, e isso só cada um saberá. Há sempre vontade de transformar uma prova numa festa, um encontro numa experiência e um momento para sempre eterno. E aqui entram os fotógrafos, espalhados pela serra a registar o esforço, a diversão, o propósito e a missão.

Há um movimento de pessoas que se organiza para construir um momento único de atletas para atletas. Porque na realidade, atletas podem ser todos, basta para isso ter a audácia de correr serra a cima serra a baixo, sempre a fundo ou nem por isso…Na serra ou na montanha somos todos iguais. Todos podemos cair, todos podemos sofrer, todos podemos ganhar ou vencer, mas todos precisamos de todos. A vulnerabilidade aumenta e  lá todos somos frágeis e fortes. Talvez isto torne tão especiais estes encontres de pessoas simples que na realidade só se querem perder e encontrar, onde se conhecem amigos em quedas, se aconcheguem abraços a desconhecidos e há sempre um sorriso mesmo para quem não é conhecido.

Na serra somos todos iguais. Todos. Dos mais lentos aos mais rápidos, dos mais conhecidos aos menos. Não há marcas, nem clubes, nem o que quer que seja, nisso ninguém se engane, que nos faça esquecer que ali todos precisamos de todos, mais tarde ou mais cedo.  Na serra tornamo-nos todos mais homens e mulheres, mais conscientes das nossas forças e das nossas fragilidade, e portanto mais humanos, e talvez por isso o trail não seja apenas uma modalidade, mas uma forma de vida. Correr serra a cima é uma filosofia com arte e muita diversão.

Foto: Adriano Branco Neves

 

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